" Ler não é decifrar, escrever não é copiar".

(Emilia Ferreiro)

09 novembro, 2011

Palavras de uma alfabetizadora...

Começo de ano...Leitura e Escrita.

Esse começo de ano em especial foi um dos melhores que já tive. A Prefeitura de Ribeirão Preto organizou um momento de palestras que foi muito produtivo. Fiquei feliz com a equipe de formação que é pequena para tanto trabalho e conseguiu fazer uma maravilha. Claro que nunca se agrada a todos, mas acho bom poder parabenizar Vanice e Alessandra pelo esforço. Afinal, nós todos que trabalhamos em educação sabemos o quão é difícil produzir algo e como são tantas as pedras que recebemos.
As duas palestras foram importantes para mim. Mas a segunda foi de suma importância para o meu trabalho com alfabetizadora, mesmo atuando este ano como professora de 4º ano.
A palestra foi com Mara Póvoa sobre o sistema de escrita. Ela falou sobre como intervir para que o aluno avance de um nível para outro. A primeira intervenção comentada foi do nível pré-silábico para o silábico e das contribuições de Sofia Vernon nesse sentido.
Mara explicou que durante as décadas de 70 e 80 a concepção construtivista entrou no Brasil junto com a espontaneísta e a concepção da primeira ficou confusa. Surgiu então um discurso conhecido nosso de que A CRIANÇA VAI AMADURECER, mas nas palavras sábias de Mara,"CRIANÇA NÃO É FRUTA!" Portanto faz-se necessárias intervenções para que a mesma avance em seus conhecimentos sobre a língua.
Vimos que no nível pré-silábico há a criança unigráfica, que atribui uma única letra para representar suas palavras. Ela está presente em grupos de crianças muito novas ou com pouco ou nenhum acesso à escrita, *ou ainda em casos de crianças especiais, como uma aluna que tive ano passado.
Farei aqui algumas contribuições de outros estudos, que juntos a palestra me renderam belas reflexões.
Para analisarmos a escrita do aluno (*digo do aluno, pois percebi, quando lecionei no EJA que os alunos desenvolvem o mesmo processo) devemos considerar, segundo Emília Ferreiro que não são mais cinco níveis e sim três períodos inter-relacionados e não mais limitados.
1º período - corresponde ao nível 1, icônico (desenho) e não-icônico (escrita): fase, em que os educandos começam a distinguir desenho de escrita mas ainda não distinguem as letras dos números, pensam que é necessária uma quantidade mínima de letras para a escrita (três) e não apresentam repetição entre os grafemas não-icônicos.
2º período -. “A distinção adquirida no nível precedente entre o icônico e o não-icônico não se perde; ao contrario, ela se integra às novas construções”. (Ferreiro, 1990)
Aqui surgem os dois eixos que serão elaborados e reelaborados: o eixo de diferenciação quantitativo – quantidade de letras na palavra, e o eixo de diferenciação qualitativo – letras utilizadas, repetidas ou não, podendo estes ocorrerem a nível interfigural – na comparação de uma palavra com a outra (se posso usar a mesma letra, aliteração, rima, se a letra pode se repetir como na outra palavra – se no nome de uma criança há letra repetida, ou se ela compreendeu a leitura de uma palavra onde isso acontece, aceitará mais facilmente que podem haver letras repetidas na palavra, comparar tamanho das palavras) e/ou intrafigural – na mesma palavra (se as letras vão se repetir, qual letra vou usar, com que letra começa, com que letra termina).
Nos estudos de Sofia Vernon, que Mara Póvoa compartilhou conosco na palestra, entendemos que o avanço dos pré-silábicos se fará por intervenções com:
atividades com alfabeto móvel;
cruzadinhas sem banco de palavras ( com banco de palavras ela torna-se atividade de leitura e não de escrita, sendo recomendável no 3º período, não agora.);
análise de banco de palavras;
escrita e análise dos nomes próprios.
Antes eu dava um ditado e escrevia a palavra correta abaixo da palavra do aluno, lia a que ele tinha escrito, ou pedia pra ele reescrever ( o que acabava sendo cópia). Agora entendo que é necessário, após o ditado, conversar com os alunos e fazê-los refletir sobre sua escrita. É preciso utilizar para isso o confronto entre a escrita de palavras grandes e pequenas, com uma ou mais partes ( simples ou compostas), organizar situações muito mais de escrita, mas também de leitura, com as referidas reflexões, como, por ex. “Porque você escreveu até o final da linha?; Se eu disse pão e mortadela, não tem que ser uma maior que a outra? Por que você escreveu todas do mesmo tamanho?”. Deve-se proporcionar os alunos situações de escrita, de ler o que escreveram, e principalmente de interpretar a escrita deles para nós, professores. O aluno deve saber explicar o que escreveu, até onde escreveu, porque escreveu igual se a escrita de uma palavra é menor ou maior que a outra. Precisa saber localizar uma palavra dentro da frase, da musica. Por exemplo:
ATIREI O PAU NO GATO. - escrita do aluno: ATKIE O PIEAIUO O CTO
Questionar:
Onde está escrito GATO? Ela deve pelo menos mostrar a palavra no final da frase, deve-se questionar qual palavra é maior, pau ou gato e porque ela escreveu pau com mais letras, sendo que a palavra é menor do que a palavra gato.
A CRIANÇA NÃO AMADURECE SEM INTERVENÇÃO – não vale fazer de qualquer jeito, é necessário saber o que faz.
Além disso a escrita do aluno não pode ser livre, deve ser determinada pelo professor, ou ele não vai saber o que escreveram e não poderá fazer as intervenções. Se o professor pede, por exemplo, para que os alunos escrevam nomes de frutas que gostem cada um escreverá uma coisa e o professor ficará perdido para formular suas perguntas sobre a escrita deles. Se, ao contrário, o professor questionar, por exemplo, do que gostam de brincar e escolher com os alunos a palavra pega-pega para escrita, poderá analisar que a palavra tem 2 partes, que as duas são iguais, portanto possuem escritas idênticas. São intervenções mais ajustadas.
Caso o aluno escreva errado, há necessidade da correção, com reescrita ou mesmo apagar a palavra para arrumá-la. Se deixar como está o conhecimento do aluno não irá avançar.
3º período - Reúne todas as características presentes nos níveis 3, 4, e 5 da Psicogênese, subdividindo-o em: período silábico, período silábico-alfabético e período alfabético.
Período silábico - a criança baseia sua escrita e sua leitura na pauta sonora, fazendo a correspondência entre letra e sílaba, sendo que essa última pode ser representada por consoante ou vogal. Na leitura de textos, quando a criança encontra mais letras do que sílabas na palavra, pode repetir sílabas, juntar ou pular letras.

Período silábico-alfabético - a criança sente a necessidade de encontrar um meio de análise do significante que vá além da sílaba mas, a dificuldade de abandonar o sistema precedente e de substituí-lo por outro é aqui representada. O tipo de escrita presente neste período é uma escrita híbrida (escrita silábica e alfabética numa mesma palavra).
Retomando a palestra, de acordo com Póvoa, são nessas duas fases que as crianças se estagnam, permanecendo muito tempo, apesar das intervenções dos professores. Aqui ela traz a contribuição de Cláudia Molinare, sobre como agir para que o conhecimento dos alunos avance.
Segundo Mara, Cláudia nos auxilia compreender que nesse período os alunos conseguem ler o que escreveram e por isso acomodam-se. O interessante aqui são as atividades que provocam conflito, como, por exemplo, preencher as consoantes das palavras pato, rato, gato, mato, nas quais pode-se solicitar aos alunos que olhem para dentro das palavras em cada uma das partes (silabas) e que pensem em como escrever cada uma, quando conseguem fazer isso sem ajuda, já estão alfabéticos. Pode-se também solicitar que escrevam palavras com letras repetidas, como: urubu, banana Amanda.
Alguns alunos ainda escrevem em desordem. Ex:
SALAME = SAMALE
SODA = SAOD
SABONETE = ASDONETE
Isso acontece porque esses alunos fazem análises separadas para cada parte da palavra (confesso que essa parte não entendi ainda muito bem, vou estudar mais sobre o assunto).
É interessante nesse período ainda o trabalho com o alfabeto móvel e os agrupamentos. Uma intervenção poderosa é o silêncio, nesse caso. É deixar o aluno falar, questionar, fazê-lo pensar pedir que leia o que escreveu, do jeito que escreveu e pedir que organize as partes para que a palavra fique melhor escrita. (Esse assunto é parte de uma entrevista com as autoras na Revista Leitura e Escrita de 2008).
Período alfabético - o aluno compreende como o sistema de escrita funciona, restam agora as questões ortográficas. Para esse período foi-nos recomendada a leitura de Artur Gomes de Morais que trata as regularidades e as irregularidades da língua. Assim que eu a fizer, partilharei com vocês. Quem tiver algo com o que contribuir será bem-vindo.
http://abcdaproerika.blogspot.com/2011/02/comeco-de-ano-leitura-e-escrita-esse.html

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"Quem tem muito pouco, ou quase nada, merece que a escola lhe abra horizontes”
Emília Ferreiro
“Um dos maiores danos que se pode causar a uma criança é levá-la a perder a confiança na sua própria capacidade de pensar”
Emília Ferreiro

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